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segunda-feira, 5 de março de 2012

O vazio dos outros

Era tudo tão cheio de tantas vozes diferentes, afoitos em disputar um espaço no silêncio. Entretanto, parecia que o lugar tão cheio era tão vazio. Não porque nenhuma pessoa especial para ela estava ali, mas vazio de sonhos que nunca se realizavam e corações que nunca sabiam onde iam.

O complexo paradoxo vazio/cheio acabava por irritá-la duplamente. Primeiro porque ela não tinha mais idade para ambientes cheios. Não gostava de ouvir tantas vozes, nem de ver tantos passos sem rumo. Segundo porque não gostava do que parecia vazio. Talvez porque seu coração sempre fora tão cheio de amores, talvez por conseguir ver o vazio das almas alheias.

E seguia seu momento de incomodo sentada num canto querendo ser indiferente sem sê-lo, sentido-se tão diferente de todos e ao mesmo tempo - e era isso que lhe causava dor - tão humanamente igual a todos que a cercavam. Tinha os mesmos defeitos com ar de irreparáveis, tinha os mesmos medos bobos, tinha os mesmos momentos de tagarelice fútil, tinha os mesmos sonhos vagos.

Numa tentativa de ficar alheia a tudo, escrevia rapidamente num bloquinho de papel velho como se aquilo fosse sua salvação.E não sendo salva, concluiu num suspiro: ela também era vazia como eles.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Do fim

Ela fez as malas. Desfez os sonhos deles. Largou o sorriso largo em cima da cama. Escorreu as lágrimas até a porta. Levou o cheiro dele no cabelo desarrumado. Lentamente abriu a porta. Não olhou pra trás. Não olhou para os lados. Não olhou. Fechou os olhos e suspirou. Partiu como quem nunca volta - porque nunca chegou deveras.

Ele olhou a cena atentamente. Quis correr, mas os pés estavam imóveis. Quis abraçá-la, mas os braços não alcançavam. Acendeu um cigarro e observou. Olhou os cabelos nas costas dela desgrenhados. A blusa desarrumada, colocada às pressas. Sentiu que a ponta do cigarro aceso queimava-lhe o coração. Sentiu pena. Sentiu dor. Sentiu nojo de si mesmo.

Ela saiu andando lentamente. Trazia o coração dilacerado no peito. Não pensou. Quisera nunca ter amado. Pensou em acabar com a vida. Sentou-se num bar. Bebeu. Chorou como criança que perdeu-se dos pais no circo. Paralizou-se de medo da vida sem ele. Mas não ía voltar. Nunca.

Ele observou a porta sendo fechada. Observou o vazio que tomou a casa de repente. Sentou-se no chão. Acariciou o pêlo do cachorro com desdém. Pensou em sair pra procurá-la. Desistiu em seguida. Sentou-se no chão. Chorou por horas. O coração tinha a dor mais lancinante que já havia sentido. Não ía mais amar. Nunca.

E isso não era uma maldição jogada sobre os dois. Era apenas orgulho de ambos. E o amor, assim, definhará aos poucos, até nunca mais existir.