quinta-feira, 12 de novembro de 2009

De tanto pensar em (des)amor, acabei por adormecer com aquele velho cheiro que meu corpo tem tanta saudade.

Por óbvio, os sonhos da noite foram quentes como a manhã. Senti abraços de saudade e beijos de adeus. Acordei cheia de (des)amor. Acordei serena como o lago escuro. Acordei com o nariz sem sentidos. Acordei, sim, acordei.

A manhã corre leve e tranquila, acabou com o frio adorável da madrugada. Acabou com meu sonho tão mais feliz. Acabou com o sono que faz esquecer a realidade. Acabou com as pernas que de tão sonolentas quase não querem caminhar.

Amor é coisa do coração, não do mundo. Sinto no meu, o resto é demais para hoje.

domingo, 8 de novembro de 2009

O vento leve da noite faz-me companhia. Não há ruídos; parece não existir vida além destas paredes róseas.

O concreto da parede separa o meu mundo abstrato daquele mundo concreto e frio lá fora.

Não quero fechar a janela e despedir-me da brisa da noite. Entretanto, não quero abrir a porta e deixar a desilusão entrar.

Pela minha janela recebo tudo que preciso: beijos doces, abraços apertados, notícias de outras terras, visitas de seres, chuvas, brilho de estrelas, sonhos de lua cheia.

Aqui, neste lugar encantado encontro a felicidade em essência. E essencial é sonhar com você entrando pela minha janela.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Não consigo disfarçar, é fato. O encantamento por alguém salta-me aos olhos, vindo do infinito dentro de mim. E todos notam, comentam e eu, acabo por ficar toda rubra.
Sinto-me uma adolescente, com quinze anos de idade e um primeiro gostar no coração. Pernas trêmulas, coração disparado, olhos brilhantes, falta de palavras só de pensar em te ver.

Além disso, as pessoas que notam o encantamento que sinto por você, dizem que existe um encantamento mútuo. Bem, se não é encantamento da sua parte, pelo menos há uma cumplicidade visível e uma empatia tão bela.

Hoje é domingo de novo, e como no último domingo, você também não está. Contento-me em não ver seu sorriso, distraio-me com bobeiras e textos quase desconexos, ouço músicas e fico pensando em você.

Sabe de uma coisa? Acho que estou apaixonada. Sabe de outra coisa? Acho que gosto disso.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Aos vinte e três

Fazem vinte e três anos. Nesse exato momento, sem um minuto a mais ou a menos, eis que conhecia o mundo. Tão crua, tão novata. Que esperava eu daquela nova atmosfera a mim apresentada? Que sonhos carregava eu no coração ao meu nascimento?


Provavelmente nenhum. Não há memórias para tão remota época. Não há sensação nenhuma. Nenhum cheiro, nenhuma cor. Quando nasci, o mundo era preto e branco, insípido ou quem sabe tivesse cheiro de hospital, não tinha gosto além de leite.


Explorar do novo ambiente, poderia ser doloroso, mas eu não sabia disso. Não contaram-me das dores do mundo nas minhas descobertas, entretanto ao mesmo tempo, podaram-me de conhecer o sabor de certas coisas do mundo por julgarem não serem palatáveis. Assim, cresci sem saber o sabor das pedras ou da terra, mas escondida e morrendo de vontade provei do sabor de giz-de-cera. Não lembro-me mais que sabor tinham. Aos vinte e três anos eles não tem a mesma aparência saborosa que tinham aos quatros anos de idade.


Dos cheiros não me privaram, conheci todos, um a um. Transformei-los no guia da minha vida sobre o mundo. Cada um remete a lembranças múltiplas, algumas delas vinda do mundo dos sonhos – mundo paralelo ao real que conheci em tenra idade. Com os cheiros, descobri os gostos. Basicamente assim: com bons cheiros existem bons gostos, e o contrário também é válido.

A cor do mundo, fui conhecendo pouco a pouco. Sem entender, descobri que tons cinzas me são muito mais agradáveis, provavelmente pelo mesmo motivo descobri que dias de chuva eram tão mais especiais. Entretanto, mesmo gostando do cinza e da chuva, encantei-me conhecendo o amarelo, especialmente quando vi essas cores cheirando em flores no campo.


Colhi flores, matei muitas só por vaidade, para vê-las enfeitar meu universo mais íntimo – também conhecido como quarto -, ali, olhei-as por horas e as vi morrer lentamente sem peso algum na consciência.


Descobri sabores que viraram vícios com o passar dos anos. Encantei-me ao sentir chocolate derretendo na boca, muito embora o cheiro do chocolate causasse um encanto ainda maior. Sabor de vento, sabor de poesia. Tantos sabores e ainda há espaço no paladar para mais a serem descobertos.


Quando conheci o tato não recordo-me. Lembro-me do tato quando descobri o amor. E esse descobri logo de chegada, ao conhecer meus pais. Mas na vida – descobri eu – que crescemos e o amor começa a multiplicar-se. Logo chegam os irmãos, os amigos e pra todos tem amor. Mais tarde chegou o amor homem/mulher.


Avassaladora calmaria. Os sentidos mais aguçados do que nunca e sem entender. Ele não tinha aquele cheiro no dia anterior; que cheiro era aquele? Cheiro de homem, cheiro de amor. As pernas tremiam, os olhos o seguiam, a boca amolecia, os pelos arrepiavam-se, a pele estava pronta.


Ah, a descoberta do amor! Como foi lindo, como fui leve, como causa-me recordações constantes. Ele chegou, e desde o dia que o conheci sabia que era diferente, como se ele tivesse uma inscrição em neon na testa com os dizeres: olha, sou eu o amor da sua vida!


Eu olhei, com olhos novos, senti com mãos novas, cheirei com um nariz inteiro. Depois vieram os beijos, os arrepios, os suspiros a noite e as palavras bonitas de manhã. Entretanto eu não sabia que junto com o amor conheceria as pedras. Foi quando entendi o que Augusto dos Anjos dizia em seu poema: “O beijo, amigo, é a véspera do escarro”. Sim, conheci a dor nesse exato momento e ela era maior do que os tombos da infância seguidos por Mertiolate, dor de coração me era até então desconhecida.


À vinte e três anos atrás não sabia o que seria na vida. Não esperava, não sonhava, nem acreditava em príncipes encantados. Aos dez anos de idade, acreditava que aos vinte e três já seria profissional formada, esposa e quase mãe, morando em casa própria, com carro, com uma vida toda decidida e pronta. Mas agora que cheguei aos vinte e três anos, não tenho nada disso além do diploma universitário, sem no entanto sentir-me uma profissional completa.


Aos vinte e três descobri que muitos dos meus sonhos ainda serão realizados, que ser gente grande não é tão fácil quanto contavam-me os livros de estórias infantis, que príncipes encantados existem, mas que quando aparecem cedo demais na nossa vida causam espanto. Aos vinte e três descobri que tudo que eu conheci até agora é só o início, que o mundo – meu parque de diversão preferido – ainda me reserva mais sorrisos, alegrias, amores, sabores, cheiros, brinquedos, vidas, pessoas, tatos, mãos, narizes, visões, madrugadas, conversas fiadas e tudo mais que ainda nem sei que existe.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

(des)encantamentos

Num mundo encantado, eu sou a princesa (des)encantada. Que feliz vive à regar seus girassóis amarelos de tanto esperar. Esperar por um amor que não vem, que não tem, que não se entrega.

Mas que deixa vontade no canto da boca, desejo na pele e arrepios na alma. Um dia, fujo do reino encantado, me jogo no mundo, te pego de jeito. Então, você será meu príncipe encantado, eu serei a sua princesa encantada e viveremos no mundo (des)encantado.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Lembranças espalhadas no jardim, amores espalhados no coração

Espalhei lembranças. Fotos por todo o quintal. Cheiros por todos os céus. Sentimentos escondidos por toda a terra. Sonhos por todo o jardim.


Mas o coração não espalhei. Permanece guardado entre os papéis no quarto. Pois ele só deixo na mão de quem pode cuidar bem dele. E nisso de entregar meu coração à quem pode, nunca tive arrependimentos.


Existem dias em que temos que admitir que os dias felizes ao lado de alguém são só lembranças. Sonhar ter a pessoa de volta é pedir para decepcionar-se. As pessoas mudam e também as conjecturas. Assim o que era lindo e mágico pode ser insípido e indiferente. Só as lembranças não mudam. Continuam felizes como o dia em que as vivemos.


Largo é o sorriso ao recordar-me de pessoas, coisas, céus, cheiros, parques, sorvetes, noites, amores, amizades, dias lentos, cervejas, sorrisos, colos, carinhos no cabelo, ósculos, aventuras intermináveis, viagens imaginárias ou não, planos construídos, vontades imediatas, abraços quentes, filmes chorosos, loucuras, elevadores.


Quantas recordações cabem num só coração? Quantas estrelas mais eu conhecerei? Me alegrarei por isso? Quantas mais pessoas eu chamarei de amor? Quantos mais dias frios serão memoráveis?


Espero que todas as recordações, as estrelas, as alegrias, os amores, os dias frios.

Amores, quero os novos! Não que os velhos não possam-se reciclar e ser novos novamente. O velho que não vira novo, definha. Acaba-se lentamente, vira amizade, vira ódio, vira quase nada. Reciclar amores é revivê-los em seu auge. Reciclar os velhos amores é tê-los novamente, mais fortes, mais quentes, mais amores.


As pessoas viram lembranças no dia em que se tornam monótonas e delas não há mais nada de novo que se descobrir. E é bem nesse ponto que devem virar lembranças para não correrem o risco de serem, então, odiadas e perdidas as boas recordações. Não quero recordações iguais de pessoas que agora são diferentes.


Amizades, quando demais grandes, correm sério risco de transformarem-se em amor. E se isso acontecer? Aproveita-se! As recordações de amigo serão armazenadas, belas e leves e inicia-se um novo amor que terá no futuro novas recordações. Bem assim que deve ser!


Um brinde as recordações. Um brinde aos velhos-novos amores. Um brinde aos amigos-amores. Um brinde a quem não era imaginado e hoje é amor. Um brinde ao amor de longe. Um brinde ao amor que é esperado. Um brinde aos sonhos que somei aos seus. Um brinde e outro brinde.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Quando eu morrer

Quando eu morrer não quero que contem mentiras sobre mim. Não digam que eu era essencialmente boa, pois tinha muito de má, se quiserem digam apenas que eu vivia combatendo a maldade interior; não digam que tinha grandiosa paciência, pois não muito raro ela esgotava-se, mostrando que eu não era uma pessoa paciente; não digam de minha inteligência, pois tê-la e conhecê-la sempre fora meu pecado capital; não publiquem os meus escritos, pois os que me fazia gosto publicar, já os fiz em vida, cada qual em se devido lugar – alguns tiveram apenas um leitor e assim deverão permanecer.

Quando eu morrer, se quiserem lembrar de mim, lembrem com um sorriso; não quero lágrimas, nem pesares de nunca mais. De onde estarei, recordarei-me de doces momentos com vocês e também eu estarei a sorrir.

Se quiserem levar algo meu depois da minha morte, levem bons momentos, bons exemplos e boas influências. Esqueçam, por obséquio, as más influências, momentos e exemplos errôneos que meu espírito, ainda tão imperfeito e errante, lhes proporcionou. Estarei bem ao vê-los concertar erros que lhes ensinei como cometer.

Além disso, quando eu morrer quero preces sinceras, saudades também sinceras e sorrisos, pois, de onde estarei sentirei saudades sorrindo e farei preces de conforto e sincero amor pra vocês.

Quando eu morrer não coloquem pedras preciosas nem ouros no meu túmulo. Os bens monetários já os tive em vida e os evitei em extremo, fugindo arduamente da avareza; não preocupem-se com beleza para meu túmulo, quero apenas simplicidade; não façam dividas terrenas para um lugar que espero habitar por tão pouco tempo; se quiserem realmente me agradar, plantem um girassol ou alguma árvore que dê frutas perto da minha sepultura. Ao menos, meu corpo terá uma última função antes da extinção, além dos que porventura por ali passarem – a me “visitar” ou por acaso – possam deliciar-se com saborosas pitangas, jabuticabas ou amoras e terão ao deleite de seus olhos um belo girassol em reverência ao astro-rei por lhe manter vivo.

No meu epitáfio escrevam algo breve e não tentem dizer quem eu era; fui tantas e tantas ainda serei, não prendam-me a Danieli apenas. Se algum querido meu doar-se a fazer meu epitáfio, deixem-no responsável pela função, pois nenhum querido meu falharia nesta tarefa.

Quando eu morrer, fiquem serenos e perpetuem o amor; se eu for antes é para preparar melhor a casa eterna para esperar vossas chegadas.

Quando eu morrer, que todos os que amo, todos os meus queridos, sintam-se beijados e abraçados longamente em breve despedida.

Madrugada de 01/06/09