segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sobre os medos

A gente não nasce com medo de dentista. Não nasce com medo da chuva, mesmo em suas tempestades mais barulhentas. Também não nasce com medo do amor e do sofrimento que ele poderá causar. Não nasce com medo de não ser aceito. Não nasce com medo da solidão, mesmo daquelas entre multidões. A gente também não nasce com medo da morte.

O medo é conhecido porque as outras pessoas, no lugar de nos apresentarem a vida, nos apresentam ao medo. Uma criança nunca terá medo de injeção se os seus pais não tiverem e não fizerem da pequena agulhada um momento de pânico e trauma eternos. O amor não irá apavorar se não soubermos do seu lado doloroso e só assim é que mergulharemos de cabeça no amor. Porque amor com medo da dor vira só pó e meio amor.

A vida não pode ser vivida plenamente com medo e se for pra ter medo, que sejam os nossos e que sejam de vivências e não dos medos dos outros que por comodidade pegamos para nós. Podemos dizer que é proteção, mas ao analisar ao fundo um medo qualquer, talvez não possamos explicar o porquê deste.

Os medos são necessários para a sobrevivência, até concordo, entretanto, se um medo chega a podar a vivência, qual o sentido de apenas sobreviver? Pra que passar a vida inteira fingindo viver escondendo-se atrás de uma tonelada e meia de medos ganhos de herança ou criados a cativeiro por nós mesmos?

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sobre como o tempo passa (ou não)


Vazio existencial. O relógio já/ainda marca quatro da tarde, àquela hora comprida em que eu nunca sei se torço pro relógio correr ou parar. Noto que há muito tempo balanço o pé, mordo a tampa de uma caneta – a boca já secou -, é a velha procura de soluções em gestos naturais e bobos. É mecânico, bem como é mecânico o ato de olhar para a tela do computador esperando que as fórmulas se completem, que as soluções brotem...

O café já está frio. Minha casa deve estar quente já que o sol teima em bater na porta do quarto a tarde toda. E não sei onde o vazio existencial é maior: aqui ou lá. Lá posso ver um filme, ler um livro, dormir... aqui eu posso fingir que sou uma pessoa completa planejando grandes coisas que pra mim, atualmente, tanto fazem.

O relógio e a maneira sádica como me prende em suas engrenagens que eu nem sei como funcionam. Sou totalmente controlada por ponteiros dourados, prateados, finos, grossos, brilhantes... pela posição deles que não faziam o menor sentido na infância. Digam pra mim, por que é que tem que fazer algum sentido agora?

Aprisiono-me dentro de mim querendo apenas algumas horas longe (de mim). Eu sou mais complexa que o relógio que me aprisionou e a preguiça disso às vezes é maior. Entre o tédio e a agonia, vasculho qualquer coisa e leio uma notícia sobre clonagem humana. Mas era só o que me faltava, ter mais uma de mim! Quase um sorriso, o vazio quase não vai embora. Como a gente espanta essas dúvidas que parecem insetos na cabeça? Dúvidas de que, afinal?

Dúvida se a hora passa devagar ou rápida. Dúvida se a hora deveria passar rápida ou devagar. Dúvida se é melhor controlar o tempo ou se deixar levar de vez por suas engrenagens barulhentas. 

Sobre as pequeninas coisas da vida

A vida é um emaranhado de pequeninas coisas acontecendo concomitantemente. Pequeninas coisas que acabam tornando-se grandes e definindo quem somos frente a própria vida.

A gente pode escolher em qual destas coisas vai se apegar para definir a cor do dia. Tem dias que as coisas tristes pesam mais, é natural - deve ser, já que acontece com todo mundo aparentemente. Em outros são as coisas felizes que pesam e nesses dias o sorriso é largo e prega-se nos lábios durante todo o dia, até terminar na hora de dormir e acordar ou não no dia seguinte.

Algumas pessoas mentem só ter coisinhas boas na vida. Mas não há como. O que existe é apenas a escolha de qual vai pesar mais. Entretanto, o coração dia após dia vai enchendo-se e por mais que a gente tente disfarçar que ele não está se enchendo das coisas triste, uma hora ou outra ele pesa tanto que o sorriso amarela, as lágrimas escorrem escondidas, o aperto é visível ao mundo - mesmo se você for um bom ator.

Aliás, atuação é algo necessário na vida prática já que o mundo não tem culpa das coisas tristes e ruins que acumularam-se no seu coração. Nem da sua felicidade repentina seguida de vontade de virar a mesa, jogar tudo pro alto e partir caminhando e cantando. Ser adulto é saber manter a neutralidade com o mundo mesmo quando o peito explode em alegrias ou em sangue e lágrimas.

A trilha sonora guia-se pela cor do dia e sábios conhecedores de mim dizem como eu estou sem titubear, mesmo quando eu finjo ser a alegria estampada na pele. Ah, mas que bobagem! Todos temos o direito de emburrar, de chorar, de gritar pro mundo que o peito dói e que a gente nem sabe porquê. Todos podemos contar os nossos problemas enumerados, a solidão que corrói os sentimentos bons. Todos temos o direito de sofrer, entretanto, ninguém tem o direito de transformar o seu sofrimento em arma para fazer sofrer.

A gente tem que aprender a lidar com a solidão devoradora de sentimentos e transformá-la em aliada na descoberta de quem somos e de porque ainda teimamos em criar mais as coisas tristes dentro de nós. Todos podemos e devemos consolar, mas as vezes o consolo vem de nós mesmos e das palavras que jogamos ao vento e deveríamos ter guardado para nós. Às vezes a solução não há e se não há, acostumemo-nos a viver com as pequeninas coisas tristes que nos rodeiam e que elas sejam leves e úteis. Apenas.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


Pediu para eu olhar e eu fiz. Abri os ouvidos e não pude ver nada do que me falava. Então abri todos os poros da pele e continuei sem ver o que era que me falava. Tentei, não diga que fui má e não tentei ver, porém a sua realidade não é a minha. Seus olhos estão longe demais de enxergar o que eu vejo. E talvez a sua realidade seja mais bonita (ou a minha). Queria ver a sua, queria saber se o que todos veem é o que diz – porque se for assim sou anormal -, mas se não for, então a anormal é você.

Enquanto você falava das coisas que eu deveria ver – mas não vejo – viajei por outras terras mais férteis e bonitas. Onde a teoria fosse meio desnecessária e o que valia a pena era só a experiência. Quem disse que é mais bonito a teoria cheia de nomes de pessoas que nunca vi do que as minhas pequenas lembranças do que há de bonito na vivência?

Vivência, aliás, é uma palavra bonita. Junto com prática e experiência, são palavras bonitas na teoria. Mas quem disse que de teoria se faz o mundo? Deus lá escreveu um livro ou citou meia dúzia de nomes com palavras bonitas antes da prática? Aprecio a teoria - sim, eu leio artigos e também sei citar meia dúzia de nomes bonitos -, mas o eu vivo é quem eu sou. E a pergunta final é: da teoria fez-se a prática ou foi da prática que fez-se a teoria?

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Com licença humana

Permitiu-se ver a tempestade que caia sem pressa. Viu o céu ficando cinza, negro, pesado e choroso. Sentiu o vento gelado e os primeiros pingos ainda calmos, depois ousados e grandes. Percebeu todo o caos do mundo se espalhando em forma de tempestade e os insetos perdendo suas casas e famílias. E só não sentiu saudade porque não queria, mas sentiu falta do pôr-do-sol cor-de-rosa.

Permitiu-se um banho morno e demorado. Deliciou-se percebendo trechos de pele sua que já nem se lembrava. Talvez porque cada pedaço seu carregasse lembranças que preferia esquecer, fingir que nunca foram, que nunca existiram. Talvez porque tivesse se tornado estranha de algumas coisas suas, por pura distração com o mundo.

Permitiu-se fazer pouco ou nada. Sentar na cadeira pelo simples prazer de sentar – e há quanto tempo não fazia isso! -, passar horas de toalha de banho, não escovar o cabelo em respeito à inocência infantil, cantar em silêncio pra não correr o risco de desafinar, sorrir só quando tivesse real vontade, ser antipática com o mundo e, principalmente, viver apenas por viver.

Permitiu-se a maquiagem borrada, o rosto desfigurado de riscos negros. Verificou todos os traços e imperfeições sem julgamentos. Não queria resolver o problema da maquiagem, nem daquela manchinha na bochecha, porque dentro dela era muito mais interessante que fora.

Permitiu-se não amar ninguém. Ter o coração vazio alguma vez, sem nada: nem pesar, nem amor, nem ressentimento, nem nada. Permitiu-se mandar a sensibilidade embora uma vez apenas na vida.

Permitiu-se perder o controle e a razão – mesmo que entre as paredes do quarto-, não ter regras a seguir e ser, apenas ser tudo e ser nada. Permitiu-se ser quem era e não o queriam ou viam dela. Permitiu-se, apenas permitiu-se.
Ser poeta não é difícil. É só juntar pedacinhos de pensamentos, do cotidiano, de amor e de leveza e deixar tudo existir numa folha de papel.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Eu poderia gritar, mas não sei se as pessoas da rua entenderiam o peso das palavras. Porque não são palavras bonitas, são como vômito de algo há muito tempo comido e que nunca teve a correta digestão. Vômito de um amor comido que se anseia em comer novamente, mesmo sem que ele tenha saído um dia do estômago.

Eu poderia gritar, mas certamente quem deveria ouvir não estará passando na rua nesse momento. Porque ele nunca, nunca passa nessa rua.


Mudou o caminho e isso já tem anos, mas eu teimo em reencontrar um caminho de folhas amarelas secas que cruze com o seu. Poderia ser até um caminho de pedras. 


Porque você não passa mais na minha vida, mas meu amor por você nunca passou.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A vida que não se deve viver

Já é meia-noite, mas isso (também) é uma mentira. O relógio vive adiantado desse tempo que é pra ver se o tempo passar mais rápido e com ele vem o sossego. Mas talvez essa técnica esteja funcionando muito mal e seja uma boa hora para conseguir uma nova. Uma que não inclua a falsa ilusão de manipulação temporal, uma que traga um sossego inexistente consigo.

Percebi que os últimos anos têm sido uma mentira. E talvez a vida inteira tenha sido. Acordei um dia e já tinham se passado vinte e seis primaveras, entretanto, não estava vivendo a minha vida em boa parte delas. Passei a vida vivendo a vida dos outros. Resolvendo o problema dos outros. Levando a culpa por coisas que eu nunca fiz, mentindo e ocultando informações para evitar brigas, mas elas sempre vinham não se importando com o tamanho do meu esforço.

Desde sempre fiz de tudo para manter a boa convivência, passando dias e mais dias tensa enquanto vivia só para tentar manter uma paz que as pessoas teimavam em quebrar. Insistente como sou - talvez demais - mantive a técnica falha de assumir os erros dos outros, de convencer um e outro que não tinham um problema, que estava tudo bem, que a vida era um lindo comercial de margarina. Mas as brigas sempre voltavam rindo dos meus esforços vãos e de tão vãos que eram, até eu sabia que não adiantariam de nada.

Mas o que mais poderia fazer a não ser evitar? Muitas coisas, hoje eu vejo. Eu era fraca demais e muitas vezes recebi (e ainda recebo) acusações falsas de que defendo um lado, de que tenho favoritos, de que não amo um ou outro. E pobre do meu coração, sangrava a cada uma dessas palavras. Justo ele que tinha o espaço de cada um milimetricamente do mesmo tamanho guardado. Justo ele que fazia o cérebro mandar sinapses de medo e submissão para o corpo para que as coisas ficassem bem, justo ele que só agia para ver todos felizes.

E sangrava, e quebrava e colava de novo. Meio mal posicionado, mas colava. Ainda funcionava: do mesmo jeito bobo. Entretanto cortes um dia ficam tão profundos que não há mais como colar perfeitamente, nem costurar, nem nada e as coisas vão mudando. Depois de tantas acusações indevidas, de tantas dores sentidas pelos outros, de uma vida não vivida, do medo da briga iminente, do sorriso amarelo, do choro escondido, da atuação de pessoa feliz para uma sociedade que tão pouco ligava pra isso; resolve-se mudar o jogo para ver se agora funciona. E isso, nem é por maldade.

É o coração, que mesmo bobo, prefere agora se afastar. São os ouvidos que de tanto aguentarem gritos sem deixar a boca falar, já cansados, agora não ligam mais para que a boca descontrole-se em gritos e palavras que nunca foram ditas. É a sensação de fracasso de ter feito tudo do melhor sempre e ainda assim, não ter conseguido modificar nada. É o desespero que já deixou de desesperar e agora vira indiferença e inércia.

Porém, o coração ainda sente e ainda tem aquele velho sonho idiota de ver todos felizes. Mas já não tem tanta força para cumpri-lo. Ainda há a dor terrível de ver duas pequenas pessoas amadurecendo como eu amadureci. Meio solitárias, meio amargas, meio sem esperança. Rodeados de brigas e onde um momento feliz sempre tem o coração batendo meio amedrontado porque sabe que logo as lágrimas voltam. Mas sorte seja, eles passaram por esse processo de indiferença antes de mim e sofrerão menos ou fingirão mais.

Eu cansei do meu papel. O papel que desempenho no filme da minha vida é secundário, pois sempre estive fazendo um papel principal na vida dos outros. E agora, dando-se conta de que o tempo passou e de que não vivi, notando que a situação se repete em loop infinito, é hora de despedir o roteirista e o diretor. É hora de escrever a vida. A minha vida, onde as participações especiais são dos outros e não minhas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Não era assim que deveria ser. Tudo está errado e fora de seu lugar. Nada faz sentido além daquela velha dor e das velhas lágrimas que correm sem controle.

Por lógica, uma grande dor gerada por um problema repetido deveria ficar menor a cada vez que reaparece.  Entretanto, cada vez que volta parece doer mais, a ponto de se tornar insuportável e de todo o corpo ficar em estado de letargia.

Talvez porque a esperança de que o problema seja resolvido há tempos já deixou de existir, talvez porque ser forte também cansa e a fraqueza emocional é doença crônica que só piora porque não tem tratamento, talvez porque quanto mais o tempo passa e o problema se repete, mais fica a sensação de incapacidade diante dele e a única sensação pensada depois de muito tempo é de simplesmente não resolver o problema.

A força aqui esqueceu que existia, mas isso não é tão ruim. Já aconteceu outras vezes e ela sempre voltou, provavelmente por necessidade e dever. Mas agora, o cansaço emocional é tão grande, a desesperança é tão viva que já não sei mais se quero que a força volte.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A noite finalmente dá sinais de que o ar volta a correr. Os sentidos aguçam-se a fim de captar uma leve brisa - que seria imperceptível, não fosse pelo calor insuportável do dia. Os pensamentos finalmente parecem se organizar e os sentidos lampejam pela volta das sensações mais simples.

E de primeiro pensamento vem a solidão. Mas a minha solidão não sabe ser só: sempre tem companhia de algumas letras que florescem adiantando a primavera já esperada. Solidão a gente tem que aprender a apreciar e isso requer tempo e sensibilidade. Depois de aprender a apreciá-la é que vem a certeza - quase cruel - de descobrir que no final solidão não existe. Sempre haverá uma brisa, um pássaro, gotas d'água, um cigarro e algumas palavras de alguém pra ler. Sempre haverá uma saudade no coração e ela faz-nos companhia quando fisicamente a companhia torna-se impossível por situações amontoadas da vida.

Pra curar a doce solidão, ainda existe a inspiração e a imaginação e com elas eu posso ir onde quiser.
Conto estórias como quem acredita nelas. Como quem as vive de fato. Conto estórias como quem sonha acordada antes de dormir. Como quem realmente entra na estória.

Por vezes, sinto-me Sônia, de Dotiéviski, em outros dias, entretanto, sinto-me Basil, o pintor de Oscar Wilde. Ou talvez, seja Alice de Carroll. 

Mas a verdade é que no final de tudo, as estórias são sobre duas meninas: Adorela e Danieli. Uma que é sonho, outra que é realidade.

terça-feira, 28 de agosto de 2012


Fazer brotar sorrisos ali não era difícil. Bastava plantar ipês coloridos, céu azul, chuvas barulhentas, desejos quentes, manhãs frias e poesias sinceras em qualquer terra fértil de imaginação.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Ensaio sobre a felicidade

Uma vez (e isso já tem muito tempo, tanto que a memória já apagou) me pediram o que era felicidade e mais, essa pessoa me pediu que fizesse um texto falando sobre isso. Tenho vários rascunhos desse texto, muitos deles já até se perderam em folhas soltas pelo vento ou computadores que resolvem parar de viver, e nunca consegui terminá-lo.

Cheguei a pensar que era um caso de tristeza crônica própria de escritores meio melosos. Pensei que não sabia ou conhecia a felicidade. Pensei que a felicidade não existia. Pensei em procurar um remédio para ver se a felicidade aparecia sinteticamente. Mas não, não era nada disso. O tema apenas não estava pronto para ser descrito. A ideia, latente, precisava amadurecer, criar raiz, tomar forma e conteúdo para depois virar um texto.

Acredito - e por favor, não me peçam motivos - que agora é a hora de escrever sobre felicidade. Ela já é bem grandinha dentro de mim e merece o exterior.

Para começar, não acredito em felizes para sempre. Não aqui, não agora, não neste mundo. Não do jeito como os filmes da Dinsey e comédias românticas acreditam em felizes para sempre.  Tolice demais - e uma tamanha responsabilidade quase maldosa para a pessoa - jogar toda a sorte da felicidade em uma pessoa. Um amor, no caso. Deve ser por isso que as pessoas se decepcionam tanto quando um amor não dá certo. Mas isso é tema para outro ensaio, concentremo-nos na felicidade.

Acredito que um dia o felizes para sempre vem, mas não sei quando, nem como. Mas haverá um dia em que a felicidade será plena e não dividida em pequenos momentos de felicidade (acabei de definir a minha felicidade, então?).

Quase isso. Sim, acredito que existam momentos felizes e pessoas felizes. Tem pessoas que já nasceram amargas, outras nasceram triste e algumas, nasceram felizes. Essas últimas parecem não se doer com as coisas que dilaceram os corações alheios, parece que choram lágrimas menos chorosas e que tem um coração de pedra. Antes que pensem que agora eu vou dizer que essa sou eu, já aviso que estão drasticamente enganados. Não sou nenhum dos três tipos em essência, nasci pra sentir tudo com grandeza: as maiores dores, as maiores tristezas, o maior amargor, as maiores felicidades.

E sendo uma pessoa que tem momentos de felicidade, nada mais justo que explicar a felicidade explicando esses momentos. A gente procura a felicidade demais em coisas grandes. Mas é exatamente nas pequenas coisas que ela se encontra, ao menos, é assim que eu sinto a minha felicidade.

Felicidade é o nascer do sol em um dia bonito, maior será ela se tivermos uma boa e agradável companhia nesse momento (mesmo que a companhia se traduza apenas num pensamento ou num resto de sonho da noite escorrendo os dedos). Felicidade é acordar com o sorriso de alguém que nos faz bem. Felicidade é ler poesias com o coração. Felicidade é saber que somos importantes para algumas pessoas. Felicidade é ter e-mail bonito pra ler na caixa de entrada (no meio de um monte de problemas). Felicidade é uma joaninha delicadamente sentar no nosso ombro quando estamos desatentos com as coisas bonitas. Felicidade é uma tarde chuvosa e a sabedoria de apreciar pingos na janela e nos cabelos. Felicidade é a simpatia dos desconhecidos na rua que despretensiosamente cumprimentamos ao cruzar nosso caminho. Felicidade é abraço apertado e cheio de carinho, desses que confortam e acabam com todos os problemas em um instante. Felicidade é andar no vento, sem medo de que os cabelos fiquem bagunçados. Felicidade é um campo de girassóis amarelos e doces como só eles sabem ser. Felicidade é colher fruta no pé e comer ali mesmo sem medo de bactérias. Felicidade é andar descalço na terra. Felicidade é ouvir música no último volume e errar a letra sem medo do que os outros vão pensar. Felicidade é chorar com sinceridade, de dor ou de alegria, sem se achar velho demais pra isso. Felicidade é um ipê florido e a sensibilidade de parar para observá-lo sem medo de ser atropelado. Felicidade é ver alguém querido dormir e cuidar para que seus sonhos sejam bons. Felicidade é ter família e passar horas de bobeira com ela e amá-la com o amor mais puro que tem no coração. Felicidade é beijo roubado quando o desejo já extrapola os sentidos. Felicidade é o cheiro de café de manhã ou de pitangas depois da chuva ou ainda daquele perfume que aquela pessoa usa. Felicidade é sentir a respiração de alguém bem perto, quase sufocando os sentidos. Felicidade é uma tarde preguiçosa na companhia de livros e canções. Felicidade é banho morno antes de dormir. Felicidade é saber da existência de pessoas especiais. Felicidade é lembrar e sentir tudo novamente como se fosse ontem. Felicidade são horas em que não precisamos nos preocupar em contar o tempo, apenas em viver. Felicidade é ver o sol se despedir e a lua toda encantada nascer no céu. Felicidade é contar estrelas antes de dormir. Felicidade é ter imaginação forte e viva o bastante para criar um mundo diferente. Felicidade é sonhar quando adulto, sem medo de parecer bobo. Felicidade é dizer palavras sinceras de carinho aos que nos cercam e ouvi-las (sempre!). Felicidade é receber uma ligação inesperada. Felicidade é passear no parque sem pressa. Felicidade é comer a comida preferida sem medo de engordar. Felicidade é ter alguém pra conversar sobre tudo e sobre nada. Felicidade é viver por viver, sem preocupações e dores desnecessárias.

Aos que não se sentem felizes com pequenas coisas, desejo que aprendam a gostar da simplicidade.


quarta-feira, 25 de julho de 2012

O contrário

Tem gente que está indo embora (para sempre).
Mas como deixar ir agora que já lhe apresentei
E deixei viver cada canto da casa, respirando meu ar?
Se ele falar que nunca volta, me jogo aos seus pés e imploro.
Se ele falar que volta amanhã, lhe peço que nunca mais volte.

Pra ver se o contrário funciona.

Distância

E ao ir dormir, sempre - e como sempre - faço minha oração. E sempre - de pra sempre e desde sempre - esteve em minhas orações. Porque sempre foste pessoa importante e especial e este grau de importância e especialidade sempre, sempre aumentam.

Em minhas andanças só pelo mundo, sei e tenho plena certeza, de que sempre está ao meu lado. Mesmo em distância física, está ao meu lado como estou do seu.

Porque distância é coisa que não existe pra quem sabe sentir. Distância é ilusão, é apenas a falta de calor, mas não de carinho. Distância é só a falta de cheiro real, mas que se transforma em cheiro de flores do campo ao primeiro nascer do sol. Distância é a falta de abraços que se traduz em doces palavras. Distância é uma coisa que não existe.
O dia era cinza.
Era cinza e lindo.
E tornou-se negro.
Pouco a pouco.

De negrume doeu.
Fez ela chorar.
Cessou canções.
Disse não ao amor.


sábado, 30 de junho de 2012

Do surpreendente

Teve tempo de olhar os pingos de chuva sumirem no vidro da janela depois daquela inesperada e surpreendente chuva. Via alguns escorrerem e outros, meio que se condensavam por causa do frio - que não era grande, mas também não era comum por ali.

Da falta do comum e da sobra de surpresa, ficou admirada ao perceber que há muito tempo surpresas não existiam na sua vida. Ou será que existiam e não conseguia notar?

Continuou por mais alguns instantes hipnotizada pelos pingos de chuva grudados na janela do quarto. Estava encantada com o fato da sua visão do mundo ter mudado e queria aproveitar para ver a rua de sempre através daqueles pingos de chuva. Era uma maneira de fugir dos problemas, entretanto sem muito sucesso.

Pensar que a paisagem habitual havia mudado pelos pingos de chuva mostrava que a vida dela não tinha nada de mais interessante se passando. Não que não gostasse de chuvas, céus e nuvens desde sempre, mas agora, era a novidade dos dias dela. Era a única coisa que tinha pra contar quando alguém lhe perguntava as novidades. Isso ou algo sobre o trabalho e o cotidiano já de botas batidas.

Com a mesma intensidade que desejava mudanças, sentia-se fraca para procurar meios de mudar. A apatia parecia ter tomado conta daquele seu velho corpo - que não era velho, mas sentia-se como se fosse - não deixando meios visíveis de mudar a situação. Até porque já nem sabia mais se a situação deveras a incomodava. Era indiferente. Tudo lhe era alheio e indiferente.

Tinha medos absurdos que nem seu íntimo conhecia direito. Tinha vontades irregulares que só o travesseiro dividiam com ela. Tinha sonhos de dormir e de acordar meio desconexos e por muitas vezes se viu confundindo os dois. Tinha vontade de voar, mas desconhecia em sua anatomia a presença de asas. Tinha pequenos prazeres diários para lhe arrancar sorrisos, como o querido vidro desenhado com os pingos da chuva. Tinha muitas pessoas em seu meio, porém, só dividia seu mundo com poucos - pouquíssimos -, o restante era desnecessário e difícil de se suportar fora do horário comercial.

Sentia que como os pingos congelados na janela, assim também estava o tempo naquele momento. O tempo, havia algum tempo já (talvez muito, talvez pouco, não sabia contabilizar com certeza), passava como bem entendia. Alguns minutos duravam eternidades, algumas madrugadas, segundos. E mesmo os dias parecendo curtos geralmente, não sentia os meses e só notava que já havia se passado trinta dias ao mudar a folha do calendário. Tudo isso porque a vida profissional pedia - ela e seus benditos prazos -, do contrário, ainda estaria em janeiro.

Abriu um pouco a janela e quis gritar, mas nem sabia o que gritar. Se gritasse suas dores, o mundo deveria gargalhar dela ou dizer que suas dores são maiores. Se gritasse coisas de baixo calão, a veriam como uma mal educada grosseira e revoltada sem motivos. Se gritasse um poema, ninguém iria entender. Se apenas gritasse... se apenas gritasse... pensou nisso e chegou a conclusão de que talvez não soubesse apenas gritar.

Era indiferente demais pra gritar, era indiferente demais para dividir alguma coisa com aquela gente que ela vagamente via passar na rua por vezes infinitas. Era indiferente demais para aqueles pingos de chuva. Era indiferente demais para sentir.



segunda-feira, 11 de junho de 2012

As pessoas que eu gosto

Eu sou do tipo de pessoa que gosta de pessoas bonitas por dentro. Pessoas de alma radiante, leve e cheia de coisas bonitas pra contar. Mas é claro, que a beleza externa também me encanta.

Gosto de pessoas de nariz bem desenhado. É uma paixão antiga, sempre será. Não é a toa eu me recordar mais do nariz de uma pessoa do que de qualquer outra coisa em seu rosto/corpo. Perco-me por horas admirando um belo nariz. E esses narizes bem desenhados são ainda mais belos e encantadores quando sabem gostar de cheiro de flores do campo, livros velhos, de chuva e do meu cabelo.

Tenho encanto por mãos. Com dedos longos e finos. Ou nem tão finos. Ou nem tão longos. Mas que especialmente, além de bonitas, saibam fazer carinho no cabelo, cócegas na barriga, arrancar suspiros e sorrisos.

Gosto de pés. Pés branquinhos, limpos e doces. Pés que sabem aonde ir e onde chegar. Pés que sabem caminhar até você, em alguns momentos com toda doçura do mundo e em outros, com todo o calor que há na Terra.

Gosto de cabelos lisos e não lisos, desses bons de passar a mão. De pessoas que não tem medo que a gente desarrume o seu cabelo enquanto brinca de fazer carinho ou de bagunçar. Cabelos que deixam cheiros gostosos e de saudade no travesseiro da gente.

Gosto de bocas e das palavras que elas podem falar. Palavras pra fazer a gente rir, pra fazer a gente gargalhar, pensar, perder o fôlego, esquecer do mundo. Bocas que saibam que a beleza maior delas não está no seu desenho ou na sua cor, mas sim no que elas podem dizer pra gente em todos os momentos.

Gosto de dentes e do sorriso sincero que eles sabem mostrar pra gente. Pessoas que mostram dentes quando a gente tá triste, quando a gente conta uma piada - por mais sem graça que seja -, quando a gente fala algo bobo, quando a gente fala algo bonito, quando olham pra gente. Pessoas que sabem sorrir com a alma.

Gosto de pessoas com olhos bonitos que olham pra gente com a leveza da bossa nova, a malandragem do samba, o quente do rock´n´roll, a doçura da música clássica. Olhos que olham pra gente de verdade.  Que nos fazem ficar de bochechas vermelhas de tão profundo que nos penetram. Olhos que entendem a gente, só de olhar pros nossos.

Gosto de gente com cheiro, com cor, com tato, com poesia, com música, com leveza, com alegria, com amor. Gosto de gente que tenha jeito de gente e que eu, chamo de minha gente.


quinta-feira, 7 de junho de 2012

De como o tempo passa

Olhei o calendário e rapidamente várias sensações estranhas invadiram o meu corpo vindas de duas constatações: o ano (novamente) chegou em sua metade e o meu vigésimo sexto aniversário se aproxima a passos largos.

Lembrei de como a chegada dos aniversários era encantadora quando criança. Brigadeiro, bolo, presente, abraços, festa, comemoração, guaraná, balão. A proximidade dos sonhos realizados quando adolescente: faculdade, casamento, filhos, vida de adulta. E agora? Que sensações trazem a proximidade de mais um aniversário?

É tudo estranho após me dar conta de que o tempo tem passado, a vida tem passado, mas parece que não ando vivendo. Talvez por tudo passar rápido demais. O mundo gira muito rápido e eu, lenta em minhas assimilações, vivo com a sensação de ressaca provocada por essas voltas malucas e rápidas do planeta. E claro, corre sangue nas veias, eu estou vivendo.

Vivendo? Não seria isso a sobrevivência? Acordar cedo, trabalhar, receber, pagar as contas, ler, ver filme, família, amigos, bar, acordar cedo, trabalhar, receber, pagar as contas... Um loop infinito de coisas que se repetem sequencialmente. Um loop que parece não deixar brechas para fugas, nem para mudanças. Vida de adulto é assim, então? Será que não tem tanto brilho mesmo ou aos olhos de criança/adolescentes as coisas sempre têm mais brilho?

São muitas perguntas e quanto mais procuro respostas, mais perguntas aparecem. Não, isso não é uma reclamação formal da vida de adulta e do fato do tempo passar rápido demais - até porquê, talvez seja eu que me deixe passar -, isso é só uma sensação que apareceu aqui e que, dividindo, que fico mais leve.

sábado, 2 de junho de 2012

Coração depedaça(n)do

Ela sentiu o coração despedaçar, cada pedaço caia ao chão seco de tristeza. Sentiu a voz ficando fina e falha. Não queria chorar, não queria mais chorar pelo mesmo motivo, não queria mais ter esse motivo, não queria mais ter coração. Mas as lágrimas escorriam-lhe o rosto sem que ela pudesse evitar. Quentes, queimavam os olhos, bochechas e pescoço. Acabavam de queimar o resto de coração que se despedaçava em velocidade ainda maior agora.

Sentiu o ar ficando falho e, não fossem as pessoas que ainda eram importantes e moravam naquele coração em frangalhos, teria desejado não mais respirar. Porém, não era tão covarde assim a esse ponto. Não queria fugir de nada e ao mesmo tempo queria fugir de tudo.

Sonhava com aquele velho mundo bonito no qual sempre se escondia, só que dessa vez, parecia que as portas estavam fechadas. Tinha que ter sonho e coração para entrar no mundo encantado e nesse momento, seu coração estava ao seus pés e os sonhos tinham todos morrido por falta de cor.

Secou as lágrimas, esboçou um sorriso. Não conseguiu. Tamanha falsidade não era de seu feitio. Procurou distração em vão. Pensou em dormir, não conseguiu. Quis gritar, não tinha voz nenhuma. Quis conforto, não tinha.

Lembrou que tinha que continuar vivendo. Seca ou não. Dolorida ou não. Sem sorriso ou com. A vida ainda estava ali na sua frente e os seus queridos, ainda precisavam de tudo que agora não tinha. Precisava ser forte, precisava ser alegra, precisava rápido.